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Os poemas de Rilke não falam de nada pois são absolutos... e não descem jamais ao nível do dizer banal ou não.

A supremacia atordoa e acorda. Exaustos os superlativos se esgotam e não avaliam ou são capazes de circunscrever ou caracterizá-lo. São intemporais. E plenos. Os poemas absolutos de R. Maria Rilke.

 

Ou quem sabe, é Rilke o próprio Orfeu retornando à poesia?

São os poemas rilkeanos – que enrilqueceram a VCA – emanações do universo poético original. Ele nasce a cada dia em nosso íntimo e nos faz renascer assim.

“Rilke é tão necessário a nosso tempo quanto o padre no campo de batalha, extraído de notas sobre Tzvetan Todorov.

Rilke existiu num mundo intemporal. E segue essa trajetória sua poesia que se libertou de tempo, lugar e condições de temperatura e pressão lírica ou o que seja. É antídoto a esse tempo porco, execrável, perverso, doloroso e indizível de tão trágico e derrisivo ou fársico de hoje, em especial o torpe tempo brasileiro. Que Temer ou Dilma leiam Rilke. Que o brasileiro abula o bélico e construa o lírico.

A leucemia não foi nada lírica ao arrematar da vida, aos 50 anos, o poeta supremo, embora tenha sido sábia e consoladora ou atenciosa ao permitir que ele findasse a última Elegia, a maior e mais profunda.

Tão íntimo da doença que o consumia (e com que consumou a Poesia), Rilke reservou-a si, não permitindo que os seus – mulher, filha e mãe – o vissem morrer. Vissem a morte. Soberba se arrematando sobre o sóbrio e febril poeta.

Há um tempo de um lugar (o de Rilke) e um lugar no tempo para Rilke.

De certo modo, o poeta alemão dono do êxtase lírico não existiu, apenas foi criação do verbo, esse demiurgo ímpar.

Rilke foi ruptura mais. O trágico é que o maior lírico era reticente com a existência, e não resistiu a ela, deixou a vida devorá-lo... e nos intervalos da devoração produziu poemas inefáveis, indizíveis de tanto imensos dotados de plena e aberta sublimidade. O aberto e o pleno possuíram o poeta cósmico, lírico insuperável.

Rilke aspirava ao absoluto, como ao ar... e deixou-se sufocar para não impedir o visionário que dele se apossou até a morte jovem... do jovem corneteiro Cristóvão Rilke.

As inescrutáveis e soberbas exigências da beleza lírica (a única bela em si e que tem como finalidade ser sem fim) a Rilke e Horderlin capturaram indefectivelmente. Aos 50 e pouco anos ceifaram da vida o lírico absoluto Rainer Maria Rilke. Ao poeta da suábia – gênio da raça alemã, concederam mais 40 anos na Terra na posse da mais funda loucura, a possessão lírica tornou-se insânia completa.

Ambos, Holderlin e Rilke, foram eméritos depressivos. A garra aguda e incisiva, plena e voraz da depressão nunca os soltou por um instante, imergindo-os numa solidão libertadora, permitindo assim a ação da máquina lírica nos sublimes intervalos da loucura espasmódica e intermitente que é o estado do ser depressivo.

Há um livro de Stefan Zweig (toda a obra de SZ meu pai presenteou – mais de 20 volumes, biografias e narrativas) que me antecipou a lírica do mundo: não sei o título mais, porém é sobre três loucos depressivos suicidas soberbos. Acometidos da sublime loucura poética, que os levou a pináculos que nem a glória alcança.

Holderlin, Nietzsche e Klist, este gênio literário puro, que ainda jovem – possuído por visões líricas sem conta – deu fim à vida, por não aceitar existir, só criar.

Alguma sorte de inquietude suprema lançou esses homens no infinito elementar. Submeteu-os a pesadelo lírico vermelho ou não, atirou-os à mais íntima e reveladora insânia humana, como forma de concentração lírica, como modo de libertação do ordinário humano. Foram posse do entusiasmo sincero de Deus.

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Murilo Gun

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