busco no subsolo das estrelas
astros enraizados acesos
infinitos trancafiados
elos solenes da lua
rua opressa avenidas desmontáveis
lavro nos jardins submersos portos
flor mineral lírios do vento
agrido faces frias com o sol dos dedos
e escuto o silêncio das madrugadas censuradas
e apalpo o ventre das alvoradas ofídicas
e contemplo a lírica
demolição das manhãs
diluo a lua
semeio astros no exato
espaço-trevo
planto gritos no silêncio sonolento
abro a boca do tempo
elasteço o infinito tímido
toco faces anunciadas com dedos eclípticos e administro
os mais sublimes ácidos aos sorrisos
tolho canções colhidas
por mãos átonos mutiladas
trituro os universos da escrivaninha
escatalogo apocalipso teologizo axiomo
vocifero rio rosno rezo e urro
deformo os eleitos minerais ceifados
por mãos amorfas despedaço
poemas nascidos de verbos
cardíacos espalho
aves dentro dos cadeados
falsa fé amordaço
reis usados
guilhotino
rainhas puras
estupro
tronos lavrados
nos alqueires medievais
infertilizo
cetros calados
felicito
admiro
reis postados nos museus modernos
reis mortos sais decompostos
armas de amplidão
eu as detono
atravesso a sede colho nas praias o mar
devoro âncoras e iscas de gusa
aço sou sol serei a noite lorelai eu canto
lavro da treva astros rejuvenescendo
nascentes luas crescentes mordo
colho raízes da luz floração dos lumes
enquanto cresce como espigas puras o agro luar
luas maduras apanho nas noites fúrias noites sem fantasia
sou sal do oceano e sou sonho
a fome devoro
e a fome devorada desmonta
os diques cheios de sede
a sede de amar a sede de viver a sede
fósforo acendo os olhos todas as visões acendo
e os farei urzes na noite espessa
violentas luzes contra pobres sombras
sou sol alucinado
reino na lareira
queimo
o frio conservado das mansões
atávico talho a árvore antepassada
e quebro os lenhos da tradição
chama queimarei a dor pendida dos lábios
a voz dos homens calados
o verbo apagado
eu me sofro sob a dor dos ofendidos
eu me sucumbo sob teus escombros
eu me adormeço na rede dos sonhos náufragos
eu me diluo sob luas lassas
sob céu solutos eu me deliquefaço
mas não sonho os sonhos plásticos dos comprimidos
eu não me esqueço dos caminhos definitivos.






