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Desde que Rimbaud, com o demônio de seus sintagmas, chocou o pensamento lógico enlouquecido pelos “fósforos cantores”, nunca mais um estremecimento lírico deixou de percorrer as vértebras do verbo ou a espinha dorsal da alma do leitor poético.

A catarse ou o desprezo, a unção ou o protesto, o eterno ou o efêmero, a infinitude ou o limite percorrem os espíritos como espinhos de rosa e nunca mais a poesia deixou de ser divina de tanto humana que é desde Rimbaud.

 

 

À França eterna foi concedido o privilégio de gerar poetas do nível de Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé, além de Verlaine e Valéry, para citar poucos. E mesmo de certo modo o romeno Cioran (que é francês). O amaro Cioran, que nem a Deus perdoou).

Isso explica o auge da civilização francesa no século 19 e nas três primeiras décadas do século 20. Apogeu que se repete desde muito.

A recepção da poesia revela o real nível espiritual de cada povo. Embora a produção poética não possa se nivelar pela capacidade produtiva da recepção. Cabe ao poeta contemporâneo do seu tempo (de si mesmo) testar e ampliar os limites e a capacidade de outros recepcionarem a poesia.

A China, o Japão, a Índia, a África – a África primitiva, original, ressalva Henry Miller – são lugares em que a poesia goza de prestígio, e os poetas são idolatrados ainda.

Quando se sufoca a voz do poeta, enfatiza Miller, a história perde o sentido e a ameaça escatológica irrompe (se faz presente o apocalipse), e varre as consciências nova e terrível aurora de sangue.

Se Rimbaud sufocou-se a si mesmo – e voltou à terra primitiva, é que ofereceu sua alma ao trópico e seu corpo ao deserto ofegante. Nessas condições de TP,duras condições, nesse ambiente crucial e capaz de provar a tenacidade e esgotar o desespero de um homem, Rimbaud buscou símbolos, e lapidou o espírito que iria aclarar a posteriori a atitude e o destino de um místico em estado selvagem, como carateriza Rimbaud Claudel.

Rimbaud não fugiu das quimeras que criou, acicatado pela voragem da usura, mas sentindo o mundo esgotado, o homem alienado, a sociedade impactada pelos rudes acontecimentos de sua época (foi egresso da Comuna de Paris), a literatura apreensiva pisando navalha, o caos tomando face, o delírio da cobiça e da graça de mãos dadas, a poesia transfigurada pela loucura divina do jovem de Charleville, parou, estancou o ímpeto porque a vida ficara atrás, e ele viveu temporada noinferno, que cantou, no solo africano, após os 18 anos, em holocausto à mediocridade do mundo, que ainda hoje ainda repele sua poesia fundadora da modernidade e condenada a jamais superar-se.

A única opção (para dilema tão extremo) foi o deserto, a lonjura, o comércio avassalador, o tráfico de si mesmo.

O seu lar (Aden) foi a cratera de um vulcão (espécie de leito de fogo) cheia de areia do mar, lacerada (ou laureada) de solidão, cercada por dunas – ou uma espécie de forno de cal sem vento ou alívio momentâneo.

E a última canção, o poema extremo, com que cingir seu sofrimento e recepcionar a morte, perdeu-se nas gretas do árido solo africano, ou se foi às estrelas e atravessa para sempre profundidades cósmicas incessantes.

A perna amputada, o enorme tumor reativado na coxa, os insidiosos gérmens do câncer devorando o corpo e o poema.

Rimbaud era apenas canção.

O assobio da bomba ainda tem sentido para nós, mas os delírios do poeta parecem disparates.

Somente sabemos que depois de Rimbaud, precisamos ser absolutamente modernos. Ou deixaremos de ser (humanos).

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Murilo Gun

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