1.000.4 – Além do papel, nenhum poema resiste.
Nenhum poema absoluto por sua perfeita
insensatez profunda.
1.000.5 – Maomé deixa Meca
sob ruínas do nome.
Em Medina busca
abrigo de Deus.
1.000.6 – Flagelos e benesses
1.000.7 – Mal Israel se espalha
Ismael age.
1.000.8 - Interpretações desejáveis
não resistem nem interessam
ao poema absoluto.
1.000.9 – Jejum e mendicância: destino.
1.000.10 – Cajados proféticos
em riste intenso apavoram o homem.
1.000.11 – A todas lascívias eucarísticas.
A todos os gozos eclesiásticos.
1.000.12 – Às potências poéticas
aos mênstruos intensos
canteiros vermelhos
auroras do sangue primevo.
1.000.13 – Aos sêmens, às asceses.
1.000.14 – Ao substancial sal do céu.
1.000.15 – À bela luxúria
à mor corrupção.
1.000.16 – Aos malfazejos dinheiros
aos desejos vitais.
(da série Gnóstico sêmen).
1.000.16 – Diáconos nus.
1.000.17 – Ao apocalipse dos apóstolos.
Ou o apocalipse que caiu
na 13ª cabeça de Paulo.
1.000.18 – A minúcias licenciosas.
O gozo secreto.
1.000.19 – A Hégira. O êxodo. O novo.
1.000.20 – 16 de julho de 622: pouco mais de
mil e trezentos anos antes
da Semana de Arte Moderna.
Precisamos doutra Fuga
e doutro Encontro
(10 anos depois, morria Maomé).
1.000.21 – Abadias estagnadas
destroçam humanas paisagens.
1.000.22 – Pontes de postes. Fomes do tempo.
1.000.23 – Às exações cristãs douradas ou não.
1.000.24 – Aos maniqueus do bem.
1.000.25 – A fogueiras cátaras.
1.000.26 – À lenha herege.
O lenho das almas boas queima bem.
O pau das almas ruins vence o fogo.
1.000.27 – Artigos de fés vendem-se
nos balcões de negócios do espírito
ou em fundamentalistas leilões (sem sal).
A usura nunca foi pecado.
A usura salva. Como o dízimo.
1.000.28 – O poema vale como um fim em si mesmo.
Sem obrigação de submeter-se a medidas.
Ou a teleologias fonéticas.
Ou a teologias contábeis.
Ditames de Bruno.
1.000.29 – A sombra da fogueira ameaça ossos.
1.000.30 – Livre Poesia.
1.000.30 – O destino é lascivo.
1.000.32 – Libertine-se.
1.000.33 – A cruz de Jesus resgatou
os pecados anteriores, presente e por vindos.
1.000.34 – A expiação é a morte.
1.000.35 – A morte do desejo é maior que a do homem.
1.000.36 – O silêncio de Deus
é de basalto evolutivo.
Ou de pedra panteista.
1.000.37 – Que caduquem vícios e virtudes.
Enquanto eu viva.
1.000.38 – Tudo o que aconteça...
aconteça muito além
de qualquer bem e todo mal.
1.000.39 – Ao novo estado da perfeição ou putrefação
espiritual poética natural.
1.000.40 – Torne-se inacessível...
Ao pecado, ao remorso, à culpa.
1.000.41 – Só a carne liberta o espírito.
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