06
Seg, Abr

Poemas
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1.000.4 – Além do papel, nenhum poema resiste.

Nenhum poema absoluto por sua perfeita

insensatez profunda.

1.000.5 – Maomé deixa Meca

sob ruínas do nome.

Em Medina busca

abrigo de Deus.

 

1.000.6 – Flagelos e benesses

 

1.000.7 – Mal Israel se espalha

Ismael age.

 

1.000.8 - Interpretações desejáveis

não resistem nem interessam

ao poema absoluto.

 

1.000.9 – Jejum e mendicância: destino.

1.000.10 – Cajados proféticos

em riste intenso apavoram o homem.

 

1.000.11 – A todas lascívias eucarísticas.

A todos os gozos eclesiásticos.

 

1.000.12 – Às potências poéticas

aos mênstruos intensos

canteiros vermelhos

auroras do sangue primevo.

 

1.000.13 – Aos sêmens, às asceses.

 

1.000.14 – Ao substancial sal do céu.

 

1.000.15 – À bela luxúria

à mor corrupção.

 

1.000.16 – Aos malfazejos dinheiros

aos desejos vitais.

(da série Gnóstico sêmen).

 

1.000.16 – Diáconos nus.

 

1.000.17 – Ao apocalipse dos apóstolos.

Ou o apocalipse que caiu

na 13ª cabeça de Paulo.

 

1.000.18 – A minúcias licenciosas.

O gozo secreto.

1.000.19 – A Hégira. O êxodo. O novo.

 

1.000.20 – 16 de julho de 622: pouco mais de

mil e trezentos anos antes

da Semana de Arte Moderna.

Precisamos doutra Fuga

e doutro Encontro

(10 anos depois, morria Maomé).

 

1.000.21 – Abadias estagnadas

destroçam humanas paisagens.

 

1.000.22 – Pontes de postes. Fomes do tempo.

 

1.000.23 – Às exações cristãs douradas ou não.

 

1.000.24 – Aos maniqueus do bem.

 

1.000.25 – A fogueiras cátaras.

 

1.000.26 – À lenha herege.

O lenho das almas boas queima bem.

O pau das almas ruins vence o fogo.

 

1.000.27 – Artigos de fés vendem-se

nos balcões de negócios do espírito

ou em fundamentalistas leilões (sem sal).

 

A usura nunca foi pecado.

A usura salva. Como o dízimo.

1.000.28 – O poema vale como um fim em si mesmo.

Sem obrigação de submeter-se a medidas.

Ou a teleologias fonéticas.

Ou a teologias contábeis.

Ditames de Bruno.

 

1.000.29 – A sombra da fogueira ameaça ossos.

 

1.000.30 – Livre Poesia.

 

1.000.30 – O destino é lascivo.

 

1.000.32 – Libertine-se.

 

1.000.33 – A cruz de Jesus resgatou

os pecados anteriores, presente e por vindos.

 

1.000.34 – A expiação é a morte.

 

1.000.35 – A morte do desejo é maior que a do homem.

 

1.000.36 – O silêncio de Deus

é de basalto evolutivo.

Ou de pedra panteista.

1.000.37 – Que caduquem vícios e virtudes.

Enquanto eu viva.

 

1.000.38 – Tudo o que aconteça...

aconteça muito além

de qualquer bem e todo mal.

 

1.000.39 – Ao novo estado da perfeição ou putrefação

espiritual poética natural.

 

1.000.40 – Torne-se inacessível...

Ao pecado, ao remorso, à culpa.

 

1.000.41 – Só a carne liberta o espírito.

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Murilo Gun

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