06
Seg, Abr

destaques
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Assim me deleito na votiva morte

Ao ânimo carcomido de mim

Este círio vertiginoso me venera

pálida luz espalha como espelho

sobre meu rumoroso rosto

aquietado pela morte indecorosa

como mármore fixado na face fria

 

trêmula claridade ele deposita

sobre idos olhos de íris esburacada

e órbitas de cores congeladas (bege real)

sobre o cenho extinto se alarga

e se curva sobre o sopro apagado como traço de giz.

 

Se espraia a débil luz triste e última

pelo meu corpo frágil e alma ausente

logo rechaçado pela alvura da treva vigente.

 

O coração bomba desatada (interrupto fluxo)

sangue desativado e enlouquecido a feder

em graxos coágulos e rombos escuros

retrocesso dispara e impugna veias.

 

À mão se conceda talvez

a última palavra (na forma de 2,3 versos fanados (ou, enfim, finados)

jamais afinados com o tempo passado:

Vade retro, poeta sem vivo verbo!

O extremo círio

sequer perturbou a treva

e a baça luz (e mortiça) apenas

anuviou o escuro do corpo.

 

O que conduz o sal à veia

é o que o salmo noturno profere.

 

Oração vive de lábio trêmulo

boca de murmuração

e o sopro habitante do esôfago

prenhe do viço de viver não se exaure.

 

Poema nasce primeiro que o mundo

do verbo de barro vem o poeta.

Do barro do Verbo veio Deus.

 

A peroração do futuro vem

dos beiços de barro do Senhor.

 

(Quando louvores idólatras

apagarem-se, Deus se animará).

Murilo Gun

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