Assim me deleito na votiva morte
Ao ânimo carcomido de mim
Este círio vertiginoso me venera
pálida luz espalha como espelho
sobre meu rumoroso rosto
aquietado pela morte indecorosa
como mármore fixado na face fria
trêmula claridade ele deposita
sobre idos olhos de íris esburacada
e órbitas de cores congeladas (bege real)
sobre o cenho extinto se alarga
e se curva sobre o sopro apagado como traço de giz.
Se espraia a débil luz triste e última
pelo meu corpo frágil e alma ausente
logo rechaçado pela alvura da treva vigente.
O coração bomba desatada (interrupto fluxo)
sangue desativado e enlouquecido a feder
em graxos coágulos e rombos escuros
retrocesso dispara e impugna veias.
À mão se conceda talvez
a última palavra (na forma de 2,3 versos fanados (ou, enfim, finados)
jamais afinados com o tempo passado:
Vade retro, poeta sem vivo verbo!
O extremo círio
sequer perturbou a treva
e a baça luz (e mortiça) apenas
anuviou o escuro do corpo.
O que conduz o sal à veia
é o que o salmo noturno profere.
Oração vive de lábio trêmulo
boca de murmuração
e o sopro habitante do esôfago
prenhe do viço de viver não se exaure.
Poema nasce primeiro que o mundo
do verbo de barro vem o poeta.
Do barro do Verbo veio Deus.
A peroração do futuro vem
dos beiços de barro do Senhor.
(Quando louvores idólatras
apagarem-se, Deus se animará).






