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Sáb, Set

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Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque)

(à Senhora do Labirinto

 O labirinto, sua vertiginosa geometria

inebriantes meandros, câmaras insondáveis (e argutas)

tortuosa rede, sinuosa malha de áridos muros.

 

Jogo de negros alvéolos, Dédalo de lodo vândalo

e escória de lírio, óleo se alastrando

no silêncio murado por ébria geografia.

 

Labirinto e seus corredores abstratos, pétreos

arcaicos de paredes cavas, exíguas

ambíguas, exatas, sagradas, adjetivas

 

estábulo de sombras, vórtices cruzados

orgulhosos hexágonos se contorcendo

como serpes que Gôngora alimente.

 

Espelhos caiados, túmulos octaédricos, sopro

ou bafo de touro percorrendo cilindros escuros

escarcéu de escâncaras, horta de energúmenos aromas.

 

Teseus capados, rios de escaras, retábulos vagindo

colhões de coelho ajaezados de vaginas áticas

células sem luz, câmbios esmagados, tauromáquica busca

 

por evangelhos de cinzas, salmos escurecidos

arenas arenosas, sangue edificado na praça

rodeada de crinas astutas e correnteza taurina

 

redoma curva, abdome do demo, vestíbulo atroz

garganta cega, mandíbula tenace, saliva insolente

sal feroce galgando esôfago da morte.

 

Atro claustro, rótula de pedra, êmbolo de grito

menisco de mácula, joelho de Capricórnio híbrido

dobradiça do instinto, boi de cio, temor e alumínio.

 

Cela sem ventre, alcova taurina, súbita

construção de cubos uivando

ciladas de basalto, rio curvo e árido.

 

Labirinto e sua astúcia catastrófica

libido indomada, corpo crivado

de ecos paranoicos, gritos piramidais

 

prismas estraçalhados, cacos de vitrais, adros

demolindo-se do ventre dos domingos, nervuras espasmódicas

sombras armando cinzas ressuscitadas em movediços hangares

 

greda subjugada, noite sem armistício

carbonos acantonados com lágrimas de pedra

respiração de escombro, veloce

 

pulmão do diabo, satanás de chifre e lasso

monturo que amortalha ódio, ira célere

paço de manhãs estupradas, domicílio insano.

 

Labirinto, recipiente de heroi, coletor

do que se esgueira, alfarrábios de cobalto

retábulo de urros, colmeia espúria, hábito de crótalo

 

rota de treva, vida e dúvida ávida, vereda abortada

trâmite de detritos, náuseas irmanadas com vômitos franceses

súcubo tugúrio, lar de sombras amestradas, cloaca branca.

 

Casa de Astérion, devorada viragem

de mítico Borges copulando com Pasífae

e sua ascese ávida, insidiosa trêmula, plural voragem

 

trottoir de atritos, desvio do lume, trilha ubíqua

agonia viva, continente sem veia, trapo e gemido

ilha tumular de Orfeu, pútrida dádiva que uiva

 

ébrio poliedro, éden ambíguo, pântano anímico

residência de pústula do ser incessante

incrustado na alma, presente da ilusa veia humana.

 

Labirinto, átrio esquivo, gare nervosa excêntrica

palco louco, devorada virgem, hangar grotesco

alfândega terrível, centro do mundo, eixo do verbo, arte

 

de pedra e assombro, desejo de sangue e lua

que cio ático assanha, lúbrico utensílio

fruto do ventre de fêmeo  touro arcano

 

pálpebra de treva, volúpia rupestre, gozo rochoso

mandíbula e charco, escuridão e espírito

engrenagem grega, soberba sombra, lúbrica beleza

 

pátio do céu em declive, alvorada suspensa num coágulo

túnel de bramante touro, viço minotauro

périplo que trena de Ariadne copia, meada

 

do espírito, corpo de lenda e lírio azul iluso

pátio onde reina, rosna, grune

irreflexão de Borges e suas fatigadas incertezas lampejam

 

onde pulsa, grassa, singra, pasta sangue sem data

onde grasna hologramas, ácidos se consolam

se consultam prélios, púbis de Atenas enrubescem

 

em varais escuros hímens se penduram (de áticas moçoilas)

a virginidade se devora, rugem paraísos cônicos

inimigo rumor dorme lima sono pesadelo molda

 

pátio de súplices aços, espelhos ilícitos

sonos enterrados, côncavo signo, prado dobrado

de sombra e intervalo, adro enodoado

 

onde ecoa medo e temor ancora

entoando estâncias de hínicas chamas ao sulfato

onde retortas sonham com mercúrios altos

 

e pútrido urro corre como rio sem nome

onde verbo arromba estribos e martela murmúrios

onde vozes se locupletam de concílios alados

 

e arrebenta o tímpano dos homens taurina sonata

crucificando sua esperança, seu destino esculpindo

com as pedras do labirinto, renda e tecido do poema.

 

Este salmo com que ladrilho solo do labirinto

dedico à Senhora que vaga em seus corredores intestinos

invectivando fantasmas, romanceando Pernambuco.

Murilo Gun

 
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