06
Seg, Abr

destaques
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  ao Rogério Generoso

o de Através

Aqui começa a decomposição do poeta

pútrida erosão de suas rimas (árticas)

e odor malévolo das sextinas rústicas

se espraiam como infecção galopante

pelas raias do intestino (diverticulítico)

pelos lombos do tomo, pelos vales da página

se espalha como água que onda transporta

narinas da estrofe tumefacta

aqui começa torneio cruel

e infrutífera queda das metáforas

vitória grotesca da metafísica da carne

aqui começa iodada e ininterrupta

(porque perpétua, invencível)

putrefação dos eruditos (e suas graxas retóricas)

 

 chama que devora seus lipídios sábios

purifica as estações do inferno (Rimbaud que o diga)

aqui começa o miasma, aqui rosna o bafio

agora esplende ridicularmente límpida

de seus compêndios finitos a obra completa do aborto

aqui começa a imersa, intermitente, prodigiosa

dissolução dos sais que iludiram poetas

aqui agora o invicto verme finca sua bandeira

mórbida, asséptica, vitoriosa sob gozo

dos sábados apaniguados, das datas servos escassos

aqui desponta o ouro coagulado

de seus gestos indádivos, aqui

começa o fim da comédia

(da vida pobre escrita)

 

aqui a cena agoniza 

o espetáculo estertora

a comédia da vida

último e probo ato empreende

aqui, agora, a chama é estuprada

e tudo  regozija (e degenera)

e o nada se declara

a decomposição do poeta é integral, ininterrupta

vitoriosa, enfim.

 

Aqui vocifera inútil

tentativa de ser próspero

aqui vale o abismo

como moeda de troca.

 

Murilo Gun

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