28
Dom, Nov

Artigos
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

Heidegger, já desreitorado – e em paz com o recém-passado infame e a consciência cívica – deu curso (em 1935) sobre os hinos de Hölderlin:

A Germânia e O Reno, perseguindo, nada mais, nada menos, do que o mistério da poesia que Hölderlin revelava, graças a seu pacto sublime com os deuses gregos. Afirmava Heidegger (H) ser o objetivo último seu recriar um lugar para o que é a poesia, situá-la em nós.

Isso é possível, dizia H, transportando-nos à esfera de força de uma “poesia efetivamente poética”, que a nós flaqueasse sua efetividade real – e não as migalhas  da aparência e os resíduos ágeis ou não, ou os trastes dividendos do simulacro ou penúria comum da poesia dos ditos ou (mau)ditos poetas, como os que hoje pululam as esqueléticas e desprezadas prateleiras das livrarias (?), com seus nomes estampados ingloriosamente em ingloriosos tomos de rimações senis e contação de histórias em versos. Por mero acaso, os últimos 13 livros de poemas que editei pela Bagaço, nos últimos 3 anos, nenhum foi lançado (vomitado à boca de leitor ordinário que me causa engulhos e a ele náusea exata), nem são encontrados (embora não procurados, modestamente afirmo) em tais esquecidas ou sifilíticas prateleiras de ricos livreiros. E, completava Heidegger, escolhi Hölderlin (falecido em 1843, após 40 anos de plena loucura sã) porque “ele é o poeta do poeta e da poesia”. A propósito, dois anos depois, em meados de 1937, Heidegger pronunciou a monumental conferência de Roma: Hölderlin e a essência da poesia. Ocasião em que o vital filósofo disse que Hölderlin concerne ao futuro dos alemães.

Embora as grandes odes holderlinianas tivessem sido concluídas já loucura (nos anos 1803/1807), estado insano que durou 40 anos, pode-se denominar de o silêncio de Hölderlin o período 1803/1843 (ano de sua morte).

Em 1966, Heidegger, ante a situação do mundo, disparou: Só um deus pode ainda nos salvar. A única possibilidade que nos resta (o único farrapo salvífico – VCA) é preparar “no pensamento e na poesia” uma disponibilidade  para a reaparição do deus (Deus salvador – VCA) ou para a ausência do deus em nosso declínio crescente. Que declinemos, então, mais ainda “diante do deus ausente”. E isso nada tinha de niilismo, mas era a pura verdade – daí o que nós vemos hoje – 50 anos depois, assistimos ao debácle certeiro da humanidade, apenas com o consolo (frágil) da poesia absoluta. Nesta, quem sabe? ou como sabemos, resiste (ou melhor, reside) a única e última portanto chance de fundar o começo de uma outra história. Pois “a poesia é a morada do ser”. Digo isso alicerçado no Poder Verde, nos 66 hectares de matas, flores, pássaros, ares, ventos, águas protegidos pelo utopista prático e visionário verde, Prof. José Rodrigues, “rei” da Mata Sul, que vive em seu castelo, num páramo etéreo, onde se situa o Centro do Universo, o Centro da Cura e a Pirâmide, e onde tomamos doses – cavalares diria, porque, a cada gole, olhamos Pretinho ( o mangalarga jovem) e Back, o cachorro risonho – de vodka russa (nasdróvia é a saudação a cada gole animal). Não somos alcoólatras, nada, somos vodkólotras (eu, o rei e Valter Portela, da Bagaço). Em Garanhuns, eu, Osmar Holanda Cavalcanti, e Marusan somos wiskólatras. Este lugar – que me tirou da mira escrita – é o Retiro da Águias, lugar de retiros espirituais, religiosos, filosóficos, artísticos, literários e clínica (a única no Brasil) especializada em curar a mais recente e periculosa doença, depois do TDAH, o Transtorno de Déficit do Verde (TDV).

Após tão longa disgressão, retomo o fio de Ariadne do trabalho de procura da poesia. É que tive de fundamentar minha visão poética com o mais ecológico-poético lugar (onde escrevo). Em Virtude do destino...

A tarefa da poesia – que herdamos de Hölderlin, via Heidegger, é preparar o advento do deus salvador da Natureza, a vinda do verdadeiro Poder Verde. E de uma nova ética, a ética natural, espontânea, não a ética construída pelo poder do capital, que é antinatural (esse poder e a ética dele, adstrita e a serviço dele).

Se Hölderlin buscava, entre os destroços do panteon grego, algum deus – e não o encontrara, cabendo a nós buscá-lo – então, ele, o sublime alemão da Suábia, estava só, sozinho, como nunca algum ser humano esteve, encarcerado por 40 anos na diva loucura. E nenhum deus ditou-lhe os poemas, porém foi a “falta de deus” que o encaminhou à melhor poesia. Esta ausência divina no entanto tornou possível, no limite, o poema.

É a tarefa do pensamento que o poeta absoluto cumpre. Ou tenta fazê-lo. E a tarefa da poesia poderia ser o fim da filosofia, tal como a impõe a nós, o Poder tão absoluto do capital, mas relativo perante o humano. No mínimo, a tarefa hoje do poeta (absoluta faina escriturária, na acepção nova) é continuar o trabalho árduo e magistral ou sublime de Hölderlin: preparar o advento, via poesia, do Deus que salvará a história humana, que restaurará o poder Verde da Natureza e conduzirá a poesia a seu pódio pindárico e triunfal. Deus está morto, coitado do Nietzsche que assim pensava torto.

Deus virá cuidar das tarefas, quer dizer, ajudar o homem (poeta e absoluto) a dar conta das tarefas do pensamento e da poesia.

 

Deus virá!

O holderlinista (fanático) e intelectual de valia, o fracês (como soe de sê-lo) Philippe Lacoue-Labarthy é peremptório.

“O teológico-poético (nos incipt do homem, da religião, da filosofia e da literatura) antigo, como afirma Heidegger na Introdução à metafísica, de 1935, está relacionado ao fato de que foi Homero, sob injunção da Musa, quem deu à Grecia seus “deuses”. (E quem sabe, Homero inventou Hesíodo, apenas um de seus pseudônimos? Pessoa e sua heteronomia reinventou a poesia moderna-absoluta). E segue Heidegger: “O teológico poético moderno é que põe em suspenso o poema da anunciação – o evangelho absoluto – da vinda (ou da ausência) do deus”.

Heidegger teoriza a poesia, em geral, com base na essência que encontra existência na poesia de Hölderlin.

A poesia absoluta tem, hoje, em vista, traçar, escolher, limpar, adubar, apurar o caminho da essência humana e natural, o destino humano.

A faina de desbastar a poesia reinante, predominante, estabelecida – e bem, na tradição parnasiana, neoparnasianada pelos próceres sonetísticos da Geração 45, é quase invencível. Mas não é a missão da Poesia Absoluta, soaria muito romântico. É a possibilidade de um perigo, de perigosa exposição dos pouquíssimos poetas absolutos: dois, em Garanhuns, 2 ou 3, em Recife e 20 ou 30, em Palmares, sob a égide do Prof. Admmauro Gommes, que causa a sinergia necessária ao embate absoluto. Encarar o perigo que ameaça o ser através da linguagem é se expor ao perigo que o novo traz.

Isso, porque, conforma Heidegger: a linguagem é o bem mais perigoso que detém o homem. E seria por ela detido se não fosse perigosa.  Pela linguagem, o mais puro e o mais velado (a lírica) podem expressar-se, assim como o confuso e o comum (a coloquial, a comunicativa, ordinária).

 

A questão é: missão ou demissão do poeta?

O poeta se demite ante tanta corrupção de rimas (armadas contra o futuro). Tanto contributo de imagens do passado, acantonado de trenas e bilibaiais, de cargas silábicas e trens de vulgar metáfora.

Prego em vão que poema (no caso o meu) é aquilo que é ditado pelo ID. A poesia absoluta é o ditado do ID. Seu ditame. Ou dictamen. É a que a forma é inerente, mais do que interior. É fruto do fluxo da inconsciência pura.

Voltando ao ditame – que Heidegger achou em Hölderlin – a linguagem é o mais perigoso (e o mais inocente) dos bens legados ao homem: só os poetas (absolutos) podem avaliar e aplicar tal.

Na conferência de Roma, Heidegger revelará que, quando Hölderlin diz ser a linguagem o mais perigoso de todos os bens do homem (o que ameaça, por exemplo, a própria verdade), ele também a define (a linguagem) como o dom que foi dado ao homem para que este ateste o que ele é. O que e quem ele (o homem) é serão atestados pela linguagem. E o são, no caso da poesia absoluta, entre tantos outros.

A linguagem é verbo humano, não filosófico, estético, científico, retórico, vulgar, popular, etc.


Qual a verdade da poesia? O leitor indaga e responde a poesia absoluta.

É preciso, portanto, disponibilidade ao combate em prol da vitória da verdade da poesia, combate que aos olhos de Heidegger assume o caráter de uma necessidade absoluta. E é a esse prélio, a essa situação, que se impõe o chamamento, a convocação para a luta pela nova poesia (cuja tradição se enraíza e se encontra na Geração de 30 (tão esquecida, de CDA, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília etc) e no primeiro modernismo brasileiro, que foi “ultrapassado” pela Geração 45. (É risível, não é?). É a poesia absoluta a poesia do ultrafuturo.

É a linguagem poética absoluta o mais inocente e o mais perigoso dos bens legados ao homem – e a este espólio do futuro faremos frente ampla e irrestrita. É a PA, a poesia do ultrafuturo.

Isso, porque a poesia é a morada do Ser. E não coisa de lazerzinho, coisadinha rimada, arrumadinho de rima para banquete burguês globalizado, sorrisinho da sociedade em festa cívica ou filantrópica, coisa bem bonitinha, engraçado que só. Nada disso. Poesia é nada e é tudo. Pois dizer é verdade (e mentira). Dizer é certeza (e ilusão). Tenho dito.  VCA

{jcomments on}

 

 

Murilo Gun

Inscreva-se através do nosso serviço de assinatura de e-mail gratuito para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.
 
Advertisement

REVISTAS E JORNAIS