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Caravaggio antecipou a modernidade ao romper com a visão do mundo ideal que o renascimento forjou.

Ele demoliu a reverente distância entre espectador e obra de arte. Seus modelos são a gente da ralé, drogados, prostitutas, bêbados. Flagrados em close, com a textura carnal realçada por fachos de luz que sobem de sua tinta como um archote.

 

A Medusa Murtola (1597) teve, como modelo, o rosto de Caravaggio refletido num espelho. (A medusa concede a quem a olhe eternidade de pedra). (Retrato do Cardeal/1600).

Piero della Francesca (1420/1492), o artista mais difícil do renascimento, o mais sublime do humanismo italiano. Compreender sua pintura é um desafio (como o é a poesia moderna). Como Bach, sua obra exprime o desejo de aproximação a Cristo. Nossa Senhora com o Menino e quatro anjos, anjos cujo olhar penetra o todo e expressa o indevassável, circundando a Virgem, que não sorri e não deixa transparecer a menor doçura maternal, voltada para o mundo interior, ausente do mais remoto cotidiano.

Paolo Ucello (Paulo pássaro) nasceu em 1397. Antecipou o renascimento da pintura. Não buscou a captura sensorial do espaço. A cor arbitrária e o rigor geométrico foram pura criação de Ucello. Negligenciou a realidade exterior dos sentidos (como o poeta moderno) para criar ritmo poético pictório (60 anos antes do Brasil ser descoberto) ditado por viva experiência subjetiva. Seus volumes são antes forma do que corpo, numa época em que interessava mais o corpo (mais a figura do que a forma, como a poesia brasileira hoje). Ucello, lídimo precursor da sensibilidade poética dos novecentos. (Perfil de Senhora/1440).

Narrativa plástica monumental da Igreja de São Pedro (Vaticano). Lânguido corpo de Adão reclinado e incapaz de erguer a mão à majestática figura de Deus a lhe transmitir centelha da vida. Mínimo e absoluto vazio entre os dedos de Deus e Adão visível bem a quem olhe do chão. (A criação de Adão, teto da Capela Sistina/1510).

Sua obra pictórica (cerca de 1600) ainda hoje assombra o mundo. Não o contentavam a cor excelsa e o desenho perfeito de Rafael Sânzio (cerca de 1500). Cansado do amaneiramento vigindo, cria a cor arrebatada, insurge-se contra a perfeição alcançada, deforma a figura (como o poeta moderno ou Picasso), contorciona os corpos, abandona a cor gritando e luz quase físsil. Os rostos de El Greco são antes reflexos do seu id do que caras e bocas. (Ver São João Evangelista e Cristo abraçado à Cruz).

Príncipe da pintura florentina (da corte de Michelangelo), sua arte logo ecoou em toda a Europa, à época, e hoje corre o universo (físico e da arte máxima). O único que traçou à mão livre um círculo perfeito (e sem hesitação, à Giotto). Há 503 anos atrás, pintou O cardeal de olhar magnífico e cor impecável. Morreu aos 37 anos. Se vivesse mais Michelangelo que se cuidasse. (O cardeal de Rafael).

Pound: o macho de Idaho. O mais sincero, arguto, sublime, não benévolo e pós-moderno dos poetas modernos. Escreveu mais da metade do Wast Land (poemário que deu a Eliot o nobel de literatura). Ezra deletou, cortou, reduziu à metade o manuscrito de Terra devastada, a ele confiado. Eliot aceitou sem tergiversar todo o corte. Pound publicou Joyce, em 1922. Sem Ezra, Ulisses morreria em Troia. Dos bagos de Pound (como dizia Gerardo Mello Mourão) vinha a melhor poesia. Pound porfiou sem tréguas contra o establishment poético e o lugar comum, a palavra agradável, doce e o sintagma simpático, choroso. Eis um modelo da poesia absoluta.

O velho Emil não perdoou nem a Deus. Romeno francês, já ancião obstinado desferia a torto e a direito seus petardos no peito dos intelectuais vips, brandindo o melhor francês tal um Montaigne do século XX. Sem complacência, exercia de pleno a mordacidade filosófica a disparar seus aforismos da amargura. Nos últimos quatro anos, valeryana e rimbaldianamente, parou de escrever e se dedicou a ouvir Bach. Só Steiner o atacou, talvez movido por um reflexo de inveja. O amaro Cioran e sua prosa impecável de Breviário da decomposição foram vitais a mim. (VCA)

Ticiano reinou supremo na arte veneziana (de 1516, morte de Bellini, até 1545, quando encontra Michelangelo, em Roma). Os femininos dele são extremos. Destoando do rigor do Renascimento, Ticiano improvisava, às vezes nem usava pincel, a cor controlava a composição. (Ver poesia absoluta). Sua obra máxima (para mim) é A assunção de Maria, surpresa, se elevando, de braços abertos, mãos em louvor, a olhar Deus, cujo vermelho do seu manto se repete no dos apóstolos, abaixo, e no de Maria suspensa.

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Murilo Gun

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