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Desta narração, aos leitores e leitoras de MOVIMENTTO, colhi o conteúdo – e dou-lha forma especial, do amigo Vavá Ferreira de Melo, ex-caminhoneiro, hoje corretor

volante de veículos e terrenos, em Garanhuns, minha segunda terra, onde escrevo meus livros, habito um castelo (próximo ao monte Magano) a 1.170mt acima de Boa Viagem onde moro desde 1960, exatamente defronte  ao parque D. Lindu, na Visconde de Jequitinhonha.  Vavá me relata fases, cenas, lembranças de sua tia Lindu, irmã de seu pai, Ananias Ferreira de Melo.

 

HISTÓRIA- Este é o começo da história de um menino e sua mãe. História de um nordestininho sofrido e analfabeto, cuja trajetória iria se entroncar com a História do Brasil. A mãe, paupérrima, presa com sua família numerosa da miséria absoluta, crescera num povoado perdido a 250km do Recife. Com as irmãs, muitas vezes, precisava ficar nua à beira de um velho açude sobrevivente, lavar a roupa do corpo, quarar e secar na relva, por não dispor de muda adequada. Festeira e tímida, essa mulher, que se tornou símbolo da valentia, grandeza e determinação da mulher brasileira, esperava o destino de casar com um jovem pobre da mais pobre ainda povoação. E casou, impelida pelos hormônios e costumes, sem nada saber de operações sexuais (e matemáticas). Achava que se fosse vista por um homem trocando de roupa embucharia. E, desde então, só se vestia (quando se...) trancada ou no escuro.

Aos 21 anos, o primeiro filho, dos treze que pariu e só oito sobreviveram. A 27/10/1945, nascia o menino da história, que só conheceria o pai, que vivia em São Paulo com outra mulher e outros filhos, em 1950, aos cinco anos de idade.

Naquele dia brasileiro 27 de outubro do ano em que findou a guerra (em paz mundial) numa casinha pobre e perdida num povoado anônimo, uma jovem de 30 anos contorcia-se em espasmos dolorosos do parto de um bebê robusto que vinha porque vinha e queria ser como foi. A parteira, senhora obesa que morava longe, vinha de jegue. Partejou e a jovem mãe acolheu-o no regaço feliz e orou a Deus que o rebento vingasse. Talvez um anjo em trânsito – ou vigia do céu, tenha dito amém, moça! Pois o menino agrestino aportou com força e cresceu num momento de penúria mais profunda que sua calejada mãe já havia vivido. E naquela meia-água de estuque caiada de branco, entre outras sete pessoas, apertadinho e comendo angu ou farinha (o energético da época) com água ou café, cresceu aquele que iria mudar o destino de milhões de pessoas e salvar da morte pela fome e miséria, que conhecia da palma da mão e das entranhas, também milhões de gentes da sua laia de humanos e brasileiros.

RETIRANTES - A seca que avassalou o solo de Pernambuco por três anos seguidos (1950 a 1952), Vargas era o presidente, aprofundou para além do absoluto a pobreza de Lindu. Era como se os céus se negassem a despejar água naquele pedaço de Brasil com o propósito de expulsá-la do seu trocinho de chão (menos de 70m²), chão que rachava, a água restante o sol bebia em goles longos e haustos contínuos. Nuvens pareciam pedras brancas. As gotas recusando-se sair dos nimbos. Tudo parecia perecer. E Lindu se recusou peremptoriamente, com a força escondida no nicho do coração e na ração de fé que a alimentava, a deixar-se morrer (ela e os filhos e o caçula da vez, Lula) de inanição de alimento e ação. Foi-se para longe da foice.

CONSPIRAÇÃO DE CIMA – Tudo conspirava para que a mãe de família Silva (Eurídice Ferreira de Melo, a brasileira) fugisse (para longe, para além de dez dias de estrada, para o oásis São Paulo) onde o destino a aguardava (sereno ainda mais com uma surpresa na manga, que se ela não viu, avaliou quando o filho foi trancafiado como cidadão pela ditadura insensata e arbitrária). E levava Lula (de sete anos) plantado na tábua rija de um pau-de-arara para arrumar o Brasil.

PAU-DE-ARARA - Esta curtida e sofrida mãe, com 37 anos, Dona Lindu, embarcou – em 1952 com os filhos num pau-de-arara para São Paulo. O mais jovem dos filhos, com 7 anos, era Luiz Inácio da Silva, o Lula.

Dona Lindu (Eurídice que quer dizer em bom grego mãe da justiça) jamais imaginaria que tomou uma decisão que iria ficar registrada para sempre na História do Brasil. Levava, num pau-de-arara, o futuro do Brasil. O Presidente da República que se tornaria um dos homens mais poderosos e populares do mundo, o pernambucano, da família Ferreira de Melo, Luiz Inácio Lula da Silva, primo legítimo de Vavá Ferreira de Melo, que me conta essa história,na redação do jornal O Monitor, presente o seu proprietário, jornalista Osman Holanda Cavalcanti.

LAR LULA - Chão de terra batido, um quarto, salinha e cozinha, sem banheiro, dentro ou fora, eis a casa, o lar, no interior de Pernambuco dessa família sem nome ou sina silva. Os filhos dormiam em redes amontoados e a única cama era de palha de coco. Não havia bancos, cadeiras, mesa. As refeições (?) eram servidas no chão de terra com esteiras como toalha, em potes de barro. Colheres só para os mais velhos, os menores – como o nosso menino da história - comiam angu na ponta dos dedos. Petisco de preá (tipo de roedor) era privilégio. Cibito ou beija-flor estilingado. A água salobra disputada com o gado. Assim desde 1936 (começo da família) até 1952, quando a seca transformou esses seres ao deus-dará em retirantes do Nordeste.

ÊXTASES DO LULINHA - Lula (aos 7 anos de idade) viajou em cima de um caminhão como gado. Sentado em tábuas de madeira na carroceria de um pau-de-arara, sem encosto ou estofado, joelhos batendo nos da frente. Comida contada da viagem de 10 dias sem parar quase nada. Punhado de farinha, banana, asa de galinha e pedaços de doce com rapadura. Para pegar o caminhão, D. Lindu ficou com os filhos por dois dias numa bodega, local de embarque. E ali, aos sete anos, Lula viu pela primeira vez uma bicicleta, visão que o extasiou.

Um dia Lula viu em Santos o irmão (do pai com outra mulher) chupando picolé. Extasiado com o sorvete que nunca vira, Lula rogou ao pai experimentá-lo. Em vão.

THE END – Essa história de um menino pobre e analfabeto até os dez anos, que, 50 anos depois de chegar a São Paulo viajando na carroceria de um caminhão como boi e comendo rapadura com asa de galinha, tornou-se Presidente da República, é didática. E a seleção do destino está a ficar rigorosa. Da dieta de Lula até os sete anos à prisão de Dilma, como perigosa cidadã subversiva, que os generais latinos, formados pela Universidade do Pentágono, peritos em destruir pátrias (como Chile, Argentina, Brasil e outros tristes condores) encurralaram e torturavam, bem que sai uma mostra de que a sina exige dos nossos futuros presidentes.

Vavá, objeto desta reportagem, que me relata pedaços da vida de Lula, ainda em Pernambuco, tem consciência plena do valor incomensurável do seu primo, ex-Presidente da República do Brasil, por dois mandatos, ambos netos de José Ferreira de Melo e Otília Perciliana da Silva, pais de Eurídice (Lindu) e Ananias, genitor de Vavá.

Vital Corrêa de Araújo.

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Murilo Gun

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