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ANÁLISE DO POEMA ENTERREM MEUS OLHOS NO AMANHECER

Faz-se simplesmente impossível definir o sentimento. Mas alegoricamente falando, apenas poderemos coligir que é este que nos faz chorar, sorrir, saltar de alegria, ou nos isolar em face da tristeza. De acordo com o famoso Dicionário Ilustrado de Psicologia (1980:298) sentimento é o “Estado afetivo brando, suave, de prazer ou desprazer em relação a um objeto, ideia, fato ou outro ser vivo.” Nesta acepção, sentimento significa a afetividade imposta em relação a outro ou outrem. Mas, em se tratando de poesia, é correto afirmar que a mesma alimenta uma relação simbiótica com o sentimento, são dois elementos que se favorecem mutuamente, chegando, às vezes, a se confundirem.

É por esse motivo que boa poesia quase sempre é entendida como aquela que faz despertar os mais recônditos sentimentos. As pessoas sentem melhor aquilo que entendem melhor. Não há fugir daí.

Parece-nos, todavia, que a poesia dita hermética se guiou por outros horizontes e fez da poética uma natureza fechada, onde os sentimentos não se fazem acessíveis ou entendíveis. A esse respeito, o crítico e semiólogo francês Roland Barthes (BARTHES, 2000:39), afirma que “os poetas instituem doravante a sua palavra como uma Natureza fechada, que abraçaria a um só tempo a função e a estrutura da linguagem. A Poesia já não é mais uma Prosa decorada de ornamentos ou amputada de liberdades.”

Tem-se, portanto, o conceito sobre a poesia hermética de que esta é desvinculada dos sentimentos, buscando, no entanto, certo ilogismo, certo desregramento dos sentidos em uma intensa conciliação dos opostos.

Vital Corrêa de Araújo se enquadra entre os poetas herméticos e em sua fábrica metafórica, na opinião de Sébastien Joachim (ARAÚJO 2004:89) ele consagra boa parte de sua obra a tematizar ostensivamente a negatividade e a metáfora. A sua intenção é derrubar o significado. Daí, a frequência de negativas e as justaposições de substantivos, verbos, e adjetivos, semanticamente inconciliáveis, impossibilitando toda representação. Ao romper os fios de Ariadne da coerência, sua estratégia poética produz no leitor um efeito siderante, causa o caos, impõe uma espécie de vazio mental, uma impressão de tontura. Vital busca uma mais valia de sentido pela renúncia tácita às imagens do mundo habitual, pela desautomatização de significados pré-estabelecidos pelas ideologias seculares ou religiosas.

Mas derrubar o significado não significa derrubar o sentimento, pois o sentimento, tal qual a poesia, não se pretende definível pelos escassos conceitos seculares. Em face de tal afirmativa, é possível citar Gommes (2008:20) ao esclarecer que Poesia sendo algo sem forma, abstrata, subjetiva, estará sempre ligada aos sentimentos do ser humano, por isso mesmo é intangível em sua grandeza, perceptível somente aos olhos dos escolhidos, infinitamente grande para caber num poema, ou numa tela, ou em uma música, ou em qualquer arte.

Assim sendo, poesia e sentimento são elementos indissociáveis, vivem mutuamente na simbiose da emoção. Onde há poesia há sentimento, onde há sentimento há poesia. Mas como, pois, justificar o sentimento na poética hermética vitalina? Atente para os versos (ARAÚJO, op. cit. 11):

Enterrem meus olhos longe das ciladas do tempo perto das estrelas, entre feras e mosaicos do céu ou na cerâmica do horizonte, além das gaivotas.

Neste fragmento do poema Enterrem meus olhos no amanhecer, se nota um sentimento evasivo, que busca estar além ou livre da atuação do tempo ao deprecar “Enterrem meus olhos longe das ciladas do tempo”, que anseia a ascensão ao querer estar “perto das estrelas”, que deseja o sublime ao observar que sua visão – seus olhos – se concentre entre “as feras e mosaicos do céu” e, desta feita, estaria (sua visão) apta a enxergar os multiformes da poética universal. Em VCA é preciso estar atento e ter uma visão, digamos assim, multifocal das relações poéticas. Ou como diria Admmauro Gommes em análise da obra Alma Mística do poeta Cícero Felipe (FELIPE, 2011:08) “Ele é um provocador de situações inauditas, mas entende que a grandeza de seus textos existe após diversas tentativas de se aproximar do perfeito e do inatingível.”

Portanto, o sentimento em Vital Corrêa de Araújo não se faz meramente negado em detrimento de uma linguagem rebuscada e de dificílima compreensão, mas nasce – o sentimento – sobretudo, da confrontação dos opostos, da conciliação dos inconciliáveis; porque é dos intensos contrastes que o Vital poeta nos sugere os tons e os aromas do sublime e anuncia deste modo os parâmetros de uma nova poética.

REFERÊNCIAS:

ARAÚJO, Vital Corrêa de. 50 poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2004.

DORIN, Lannoy. Dicionário Ilustrado de Psicologia. São Paulo: Livraria Editora Iracema LTDA, 1980.

FELIPE, Cícero. Alma mística. Sirinhaém: Gráfica inovação, 2011.

GOMMES, Admmauro. Intradução Poética. Recife: Edições Bagaço, 2008.

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Murilo Gun

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