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Qui, Jul

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O que seduzia Valéry em Mallarmé era a insensatez deste em poesia. Em 1885, Mallarmé em carta a Verlaine (amante de Rimbaud) disse: “sempre sonhei e busquei outra coisa (em poesia),

com uma apetência de miserável e paciência de alquimista, disposto a sacrificar toda verdade e qualquer alegria, como outrora se queimava toda a mobília e vigas do teto para bem alimentar o atanor e gerar (ou engendrar) a Grande Obra”.

 

Para Mallarmé, como para todos os grandes poetas da modernidade (cujo estatuto vigora esmaecido), a realidade é uma ilusão. E cabe, é papel função da poesia desvendar tal ilusão real. Voltando ao filão: e o quê é esta Opus Magna? Um livro simplesmente (excepcional) em muitos tomos, um livro que fosse, arquitetônico e premeditado, não mera reunião (física e psíquica) de inspirações casuais (ou causalmente coerentes, o que é pior).

“Direi mais: O Livro, convencido de que no fundo só existe um”. Já em 1867, ele formulava em carta a Cazalis: “não seria sem uma angústia verdadeira que entraria no desaparecimento supremo, se não tivesse terminado minha obra, que é a Obra, a Grande Obra, como dizem os alquimistas, nossos ancestrais”. (Eu diria: poetas químicos de outrora).

Pondera Cioran que criar uma obra literária que concorra com o mundo (et pour cause com Deus), que não seja reflexo (de nada) mas seu duplo, foi o projeto de Mallarmé, herdado de Hegel indiretamente através de Villiers d’Isle Adam.

Quando a 3 de novembro de 1897, Mallarmé apresentou a Villiers as provas corrigidas de Lance de dados, inquiriu-o de pronto: “não achas isso coisa de pura demência (ou desvario supremo esse livro)?

Mas o demente não era Mallarmé, mas Villiers que, num acesso de grandeza intelectual, acabaria escrevendo: “neste poema de tão, estranha disposição gráfica o autor (Mallarmé) elevou a página à potência do céu estrelado”.

Conforme Cioran, Villiers Adam viveu intelectualmente muito acima de suas posses.

Cada vez mais, o leitor literário deve se interessar não pelo que o autor disse, mas por aquilo que teria querido dizer. Ou mesmo sonegou-o. Não por seus atos reais, atuais, mas por seu potencial. Menos por sua obra real, mais por sua obra sonhada.

Mallarmé fora apenas um ser alucinado. A voragem e o desvario deram seu lance de dados e o azar foi abolido.

Cioran afirma que do Livro, esse rival do universo (que Mallarmé tramara) não resta nada, nenhum indício, qualquer pista, que se houvesse estariam nas notas que ele fez desaparecer.

Foi sonhando, projetando O Livro que Mallarmé chegou até sua obra parcelada (e soberba). “Se eu tivesse sido mais sensato, teria deixado uma obra qualquer”. (Dispara o mordaz Mallarmé).

Imagino Mallarmé como um narciso arrependido, desesperado, destroçando espelhos d’água; como diabo da cruz fugindo de seus reflexos crus, ímpios. Nus. Imagino que SM habita-me algum poema. Qual?

VCA é editor do jornal Monitor de Garanhuns e da revista literária PAPEL JORNAL.

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Murilo Gun

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