13
Sáb, Ago

Artigos
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

Vital Corrêa de Araújo

Decorridos mais de 4.765 dias do 3º milênio, início do século XXI, primícias de uma era de milanos, somos partícipes de uma época pós-moderna, espectadores da 5ª Revolução Industrial (e tecnológica), cidadãos de um mundo globalizado (todos habitamos a mesma aldeia global), sob égide do virtual, do incorpóreo, do informacional puro (vida digitalizada informada por bips, permeada por chips hoje algo tão banal como banana), a que exibimos nosso legado quântico, nosso destino transgênico, laudos de DNA, com o firme propósito, todos, de sermos contemporâneos de nós mesmos.

 

 

Como escritores (ou leitores, o outro lado da ponte lingüística), desafiamos nossa sina literária (desfiamos nossas teias da palavra) sob âmbito ou guante do verbo, que nos cria e do qual somos criadores.

É nesse ponto de ruptura (e continuidade dialética), nessa encruzilhada da hora, nesse mecanismo de cronos ou fio de tempo que se lança do carretel infinitum de mais um milênio, que se instala nossa preocupação (em forma de desafio do desvendamento do que está por vir). Se o terceiro milênio chegou, deve-se dizer para quê.

Como sempre acontece, o relógio da mudança das eras encontra-se atrasado.O século XX começou ao final da I Grande Guerra. O milênio (3º) ainda não começou? Grandes tarefas não foram cumpridas nestes mais de 4000 dias do novo tempo.

Do ângulo cultural específico da escritura literária, resta fazer um balanço do século XX, aprender o real estágio da literatura no momento atual e projetá-lo no século XXI, ou seja, debater as reais possibilidades, as justas perspectivas da poesia, do romance, teatro, ensaio e crítica perante o 3º milênio e colher tais expectativas projetadas no corpo desse novo tempo. Ou seja, qual o futuro da literatura no âmbito desse novo marco temporal, bem peculiar, vez que perante nós vastos milanos se anunciam, e a ampulheta começa a girar 365 mil “vestas” de areia ou grãos temporais.

Isso no bojo de um mundo em transformação (e fracassos, derrocadas) inesperada, contra os formulários da história e contra as teorias daqueles que, no século XX, estudaram as sociedades e seus processos, tentando prover as trajetórias futuras e adivinhar-lhes filosoficamente os caminhos do porvir, infrutiferamente.

Vivemos a era prodigiosa e desconhecida da globalização da economia, da miséria, da fome, da violência, da informação, da literatura complexa, época em que as fronteiras, as moedas, os valores, as palavras, os desejos, as verdades promiscuamente se misturam e mudam de natureza, de estilo, de moral, de íntimo.

É como se grassasse uma nova cultura fundada em abstrações, telas de cristais líquidos, velocidade da luz, instantaneidades voláteis, pressas e pressões estéreis, faxes, celulares, internet, toques, dígitos, passagens, ilusões, vórtices, virtualidades digitais, etc. que operara uma nova forma cultural de socialização e individuação, criando novas possibilidades ou novas impossibilidades, sim ou não, um ou zero, Deus ou nada.

Há, no entanto, um ponto sólido, que jamais se desmanchará no ar, que é a palavra poética, onde mora o ser, a recriar o homem em cada volta da vida, a refundir o mundo na teia ou na sopa espessa da humanidade, a tornar-nos mais humanos ou nunca demasiados desumanos.

É a palavra criadora, a fecundar âncoras, a gerir mares dantes inavegados, para que o homem alcance os seus cais – saudade em pedra-ante miríade de portos virtuais que o seqüestram, ante multidão de ilusões que o diminuem. E diminuir o homem tem sido (e foi) uma medida farta do século XX.

É a palavra que não é serva, nem dos deuses-homens nem dos homens-deuses; é a palavra que não é acessório, acidente, frivolidade, ceitil, gracejo fútil, mera  ninharia, emoção barata, mas que é essência da seiva humana, do pulsar da vida, gema que a nossos corações incendeia. Ao contrário: a palavra da qual tantos deuses quanto homens se tornam escravos ou cultivam com esmero e profundeza.

Com o violento século XX, morre um mundo sem regras, ou honra, um mundo perplexo, assustando e assustado; se desagrega uma época pouco ética, bárbara entre os tempos bárbaros, coroado de incoerências, pontuada de conflitos entre nações, entre povos e indivíduos, época de guerras abruptas, cruéis e freqüentes; com o doloroso fim do século XX, enterra-se um tempo de desejos aprisionados, de ânsias insidiosas, de êxtase luxuriosos, de emoções frágeis, de expectativas indeterminadas, da busca do delinqüir como regra de vida ou como droga de morte; encerra-se um tempo de dilema entre Deus ou nada. Ou apenas recomeça-se era com as mesmas mazelas multiplicadas?

É preciso, no entanto, velar pelo futuro, fazê-lo futuro e não projeção dos fantasmas do passado; é preciso imaginar o futuro humano para o homem, mudar as imperfeições da hora dos homens, nossas, para um menos-que-imperfeito futuro.

É preciso fazer com que esperança não vire pesadelo e fé mera farsa.

Daí o papel fundamental do escritor, razão e função da literatura, que é tomar o Partido da Humanidade, inserir-se de corpo, alma e palavra na ideologia do homem, do humano, além de todas as coisas, além do Bem e do Mal.

Creio que a posição do escritor ganha um relevo especial no 3º milênio. Não se trata de responsabilidade social, mas de responsabilidade humana (e cultural). O social é uma abstração, um conceito para uso político, como a produção o é para a economia. É patético, para não dizer trágico, torcemos, a cada hora, pela elevação do Produto Nacional Bruto, até o infinito, por toda a eternidade. Como medida do humano.

O que interessa ao escritor é o homem e o seu destino humano, e não o social, a utopia econômica, o sonho do modo de produção ideal, a insurgência de um éden material ou de um paraíso de aço inoxidável, movido a óleo diesel ou ungüentos pecaminosos.

Eis aí, claro, meridiano, insofismável, cristalino e puro o papel do escritor e sua dívida para conosco mesmos, para com a humanidade real (e não digital).

Fixada uma fronteira, o agir marcado, limpo o horizonte, mudo de âmbito e coloco uma questão para retornar ao ponto de vista e testar nossa ideologia.

Qual a nossa contribuição com a sociedade, como artistas, intelectuais e formadores de opinião? Qual o papel da literatura no mundo de hoje? O que estamos fazendo como escritores para mudar o mundo?

Mais precisamente; seria possível a literatura mudar o mundo dos homens, ou mesmo mudar os homens do mundo de hoje? Afirmar isto com “sim” pode soar como uma ficção científica, mas o homem mais sábio que viveu entre nós, o rei Salomão, com a autoridade de quem era poeta, e um dos primeiros teóricos de que se tem notícia, disse que sim. Ele mudou seu tempo sem assinar decretos, mas poemas: basta dizer que, enquanto viveu, o mundo que antes era um estopim chiando, não conheceu nem a guerra nem a fome. Porque as pessoas o conheceram e souberam inalar a seiva de seu canto, migrando para Jerusalém, como colibris açodados pela primavera, para beber sua literatura, como foi o caso da rainha de Sabá. A obra de Salomão sensibilizava reis e nações. Ela é constituída por 1005 poemas que falam de amor, paz e fraternidade, entre os quais O Cântico dos Cânticos, inserido mais tarde no cânone bíblico.

Não estamos mais como há três mil anos atrás. Ou, há 10 mil anos atrás, como o poeta Raul Seixas cantava. Não escrevemos nossas obras em pergaminho ou por cevada, nem é preciso alguém se deslocar de um país a outro para conhecer uma obra. A Internet coloca um livro instantaneamente em nossas mãos, sem a necessidade de sairmos de casa. Por esta razão, creio que a literatura é capaz de tornar a alma das pessoas mais branda. Pode perfeitamente fazer com que um dia o berro que vem da bolsa de valores seja trocado pela música que existe no choque entre consoantes e vogais. É possível que um dia o mundo ame mais as palavras do que os números, e que o destino da humanidade abandone seu caráter bursátil e possa ser prescrito em versos e romances. Se eu não acreditasse nisso certamente deixaria de escrever.

Não estou com isso afirmando que o poeta é um vate a enxergar, depois da linha do horizonte, o sol que acabara de se pôr.

São apenas posições em que me arvoro para justificar o que penso. É possível que o nosso destino seja antecipadamente escrito em capítulos de romances, cujo final é sempre feliz; que o camponês poderá plantar e esperar pela safra sem imolar as pedras nos calos das mãos. A paz pode perfeitamente ser construída e sua morada será sempre o coração do homem, como o é a literatura, especialmente a palavra poética (Numa paz inoxidável da página do id).

Enquanto não crermos que, com uma caneta e um pedaço de papel, somos capazes de modificar a ordem das coisas, com essa mesma caneta e esse mesmo papel os poderosos (moiras da usura) vão arquitetando nosso destino, através de decretos inescrupulosos; vão planejando o desenrolar da história, inventando guerras para, sobre nosso sangue, construir o império da indústria bélica e a civilização do desperdício e da miséria; vão tirando do bolso da algibeira a escala que mede a inflação e diz até quando nossa fome é suportável. Mas tudo isso pode ter fim se tomarmos consciência de que nós escritores somos os responsáveis pela inteligência dos homens, pela salvação dos livros e pela iluminação do mundo. E ensinarmos que de juros e ágios não é feito o coração.

Finalizando, e ante à grandeza do trabalho do escritor pernambucano, não posso me furtar de uma meditação sobre o caminho percorrido. A paixão é a qualidade do ser humano que nos eleva à suprema condição de determinar um objetivo-causa, estabelecer ou vislumbrar os meios de alcançá-lo e dirigir todos os esforços – o mais coletivamente possível – sem economia ou dispersão de tempo e suor, no sentido da realização desse objetivo, causa, sonho.

A paixão implica utopia e ação; exige dedicação e sonho. Exige ser. E não objeto que nos domine e limite nossa necessidade e reduza nossa liberdade.

Da alta tribuna do planalto de Garanhuns e do púlpito de palavras desta revista singular, elevo (ou baixo) meu apreço e minha ilusão, por esta cidade e o futuro que ela aninha em sua força de ser terra de homens (generosos e amplos como o planalto Borborema, que se orgulha de instalar a garoa e Garanhuns.

{jcomments on}

Murilo Gun

Inscreva-se através do nosso serviço de assinatura de e-mail gratuito para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.
 
Advertisement

REVISTAS E JORNAIS