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Dom, Jun

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Na poesia, estabelece-se uma relação (ou compenetração íntima, cálida, complexa) quase sexual, porém inusitada, com os objetos (do mundo e da vida).

É uma busca de arquétipos perdidos, pela palavra. O verbo no poema é um tipo esdrúxulo de Indiana Jones.

 

Não se pode obter respostas (tipo lições, capas ou retratos de emoções, explicações) pela poesia, porque ela está mais além da banalidade do mundanismo, da imediatez quase automática que na vida comum (capitalizada, urbanizada ao máximo, gozada ou sofrida à saturação) perseguimos com obsessão e plenitude.

Esse desvio, essa desarticulação, esse desnível levam as pessoas a detestarem e marginalizarem a poesia dita moderna. É que não encontram sofisticação direta, gratificação psicológica, atendimento a necessidades de comunicação (e informação) que é como o ar, para quem viva à flor da pele.

Lemos poemas munidos da imprescindível lógica da vida, direta, sim ou não. E a lógica poética é a do inconsciente. Que não separa as coisas, não as coloca em perspectiva egóica. Uma leitora amando busca o estereótipo do amor no poema. E de modo absolutamente compreensível, direto, sem dúvidas. Se não for assim assado, rejeita de imediato.

Enquanto o leitor moderno, atual, de poesia se coloca (ou coloca seu gênio) ao nível da pele, do imediato, da consciência (que é falha), o poeta poeta está imerso na bacia (igual a mil mares) do id. Realmente, não há a mínima comunicação.

O poeta não pode nunca ser um sonhador. Ele entremeia pesadelos a verdades, vertigens a realidades. Entretece delírios. E se(?) comunica, o faz via aromas do verbos, sabores estrepitosos da palavra. O poeta se nega a dar validade à lógica binária (metafísica, não dialética) do sim ou não, assim ou assado. À lógica dos estados de vigília e usura.

A lógica da poesia passada é a do prepúcio que não livra o falo das cordas e nós moles. E portanto não se alevanta além do real imediato. A lógica binária (não poética) se satisfaz com padrões formais iguais, unificadores do poema, cujo alicerce vital é sua estrutura rítmica (baseada na métrica rimada, no cálculo silábico preciso para não quebrar o pé e na exatidão da rica rima). É a busca dessa unidade poética que gera a cada ano, no Brasil, milhões e milhões de sonetos. O Brasil tem o mérito de ser o maior produtor de soneto do Planeta.

A poesia velha busca a simetria do sonho e a equivalência da vida. E assim nos emociona. O reino de Urizen, de Blake, o sonho de Acab de cartografar em palavras o oceano para encarar nos olhos Moby Dick; a ideia de Valéry de um controle absoluto do poema em direção ao êxtase revelam o veio da verdadeira poesia.

O passado e o presente são simétricos, para o poeta, e o presente (ou seja, o momento em que redija o poema) é o eixo dessa simetria. Enquanto a história (inclusive da literatura) lida com o passado (e não antecipa o futuro), trata o que foi como é, a poesia não pode tratar do que foi, mas do que e como será.

Shelley confirmou isso, em Defesa da poesia, dizendo: “O poeta participa do eterno, do infinito, da unidade. Para ele, o tempo, o espaço, o número, o trânsito, a mediação não existem”. Em benefício da poesia. “As formas gramaticais que expressem modos de tempo e lugar são danosas à mais elevada poesia” (completa Shelley).

A poesia nasceu como resposta. Não a um mero ser comum (mulher objeto, etc). Mas a um oráculo, na evocação dos arquétipos (VCA).

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Murilo Gun

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