06
Seg, Abr

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Luiz Alberto Machado

Este não é um livro praqueles de sangue lívido quase fugidio, antes fosse. Talvez um menoscabo aos pávidos, se tanto. Muito menos daquele tipo: vou ali, volto já.

Nem precisaria disso. Neste momento, com certeza, o autor estará elucubrando sóis e estrelas no Sítio dos Espíritos, enquanto você passa as vistas nestas mal traçadas linhas do introdutor. Melhor aprumar a conversa.

Sim, porque nestes tempos sombrios em que o estouro das fossas trouxe à superfície o que havia escondido de mais nefasto nos esgotos de Pandora, resta entoar a corajosa Nênia de Abril para assumir que somos todos poetas obscuros.

Digo isso porque o biógrafo e dramaturgo estadunidense Edgar Lee Masters assinalou que os poetas são um delicado sismógrafo, um barômetro que capta mudanças na pressão atmosférica, um microscópio que descobre germes destruidores da carne do povo.

Um a zero, outra: a confirmação disso foi dada pelo filósofo Will Durant ao atestar que todas as verdades são velhas e só os poetas e os loucos podem ser originais.

Lá se vão duas ou três porque Freud dizia que: “Os poetas e os filósofos descobriram o inconsciente antes de mim. O que eu descobri foi o método científico que nos permite estudar o inconsciente”.

Mais e o psicanalista Rubem Alves a mencionou: “Faz tempo que para pensar sobre Deus, não leio os teólogos, leio os poetas”.

Concorde ou não, lá na antiguidade ocorreu um fato bastante interessante: quando Alexandre da Macedônia invadiu para destruição de Tebas, poupando apenas a casa do poeta Píndaro. Deveras um caso raro, as biografias comprovam que foram poucos que tiveram esta sorte.

Sim, até mesmo Kafka que temia ser visto como repulsivo física e mentalmente, ao escrever sua oração no leito de morte, Um artista da fome, convocou seu amigo, Max Brod – a quem doou todos os direitos sobre os seus escritos -, com a determinação de que queimasse tudo que houvesse publicado ou inédito. Essa drástica decisão fora motivada por ter ele passado a vida toda como um ilustre desconhecido, ganhando notoriedade apenas postumamente e isso só porque o amigo ignorou o pedido e publicou toda sua obra.

Fatos como esse se repetiram, como a que ocorreu no revertério envolvendo o próprio Píndaro que foi preso na batalha de Patea pela simples conduta pacificadora, quando este estava sob os auspícios do rei Hierão de Siracusa. Se foi poupado numa, não teve a mesma sorte na outra.

Quase o mesmo se deu com o poeta Frínico que foi condenado pelo drama A tomada de Mileto, só porque levou a plateia às lágrimas com as desgraças da cidade morta.

Não foi outra a razão que levou o Walt Whitiman a lamentar: “Para que haja grandes poetas é preciso que haja também um grande público”.

O que então se dizer deste tempo tão sem poesia além de, apenas, para os que escaparam com a simples constatação: De lástima é a pele dos pusilânimes!

Para os que se foram, ah, para estes os poemas solidários deste livro que é composto de 5 partes: a primeira, Poemas da última madrugada, na qual o poeta VCA descarrega logo de cara: “É de lata a alma do déspota / de mármore o sono da estátua”. E não menos indignado vocifera no seu poema Dou fé: “Rasgue entranhas / (suas ou do outro), seja... Estripe pássaro interior, voe ao vazio que é. / Não se curve ao peso da prece / não suje bolso de dízimo / não macule coração de usura /... / o horror nunca foi azul...”. Porque o poeta se mostra por inteiro num verso do seu História do Até: “...serei grito urbano e largo...” E assinará seu Escrito na água: “...Poema escrito com a pena da eternidade...” e com dose extra vaticinando no seu Visionário verbo: “...tudo tombará / Perante mortos olhos das sombras que seremos”. Além disso, diante das suas Utopias esgotadas dirá com maturidade: “... Eis que se apresenta putrefação faminta / eis que ânimo já se escoa fora do vaso da vida”. E demonstrará qual o Presente de grego: “... País vanguardista, hoje caminha para trás... envergonha o mundo em pleno século 21...”, porque não se entrega e resiste com a sua Identidade lírica: “Sou poeta (sim) / pois não teço, faço, emprenho verso / mas apenas acoplo palavras / ao inverso do poema / mui indireto, porém bem ambíguo”. Está dada a senha, a palavra de passe.

A segunda parte é composta por Nanopoemas, formada por dísticos, monósticos e tercetos que foram epigrafados por Hölderlin & Heidegger. E logo em um dos Sete monósticos id-otas ele adverte: “Ao captar significado de poema, afaste-se”. E para invocar os seus 77 Monósticos de carbono – Visão Poética do Alto da Cela, traz a epígrafe de Novalis: “A poesia é o verdadeiro real absoluto. Quanto mais poético mais verdadeiro. Tem-se com isso o teor do que reservam os versos de VCA daí por diante.

Na terceira parte é a vez dos Quatro poemas equívocus em que se pode sintetizar com estes seus versos: “... assim o mundo dos homens de hoje... apregoada e brasileira hecatombe...”. É com essa carga poética que ele prossegue e vai mais além de si próprio.

Na quinta parte, as Prosas Vitalícias em que ele traz de antemão a advertência: “Este, a propósito, é um livro de poesia, isto é, um tomo, reunião, compêndio de poemas complexo e dificilmente estaria à altura de quem o adquirisse, porque o estilo é bem astuto, pós-moderno, e paradoxalmente o autor vela pela ambiguidade e terceiros sentidos dos poemas...” E escorre com uma recomendação de que não o compre; se comprar, não abra, se abrir, não leia, se começar a ler, pare; e se já leu: esqueça! Mas para quem prosseguir, inadvertida, corajosa ou teimosamente, ele trará Notas Inexplicativas relacionadas à poesia e o abstracionismo de Kandinsky, de sua crença na dúvida, da liberdade gramatical, de Canudos e o que ainda não disseram as palavras, da Luz do Abismo e de Álvaro Lins, do Ulisses de Joyce e do entremear de razões incisivas sobre a Ars Poética em Prosa. Como fui um dos persistentes, digo logo: imperdível.

Por fim, o professor e crítico Sébastien Joachim tratará sobre a evolução da poética de VCA, detectada a partir da Ecologia da Negatividade e do Silêncio. Da minha parte digo que a categoria desta crítica dispensa qualquer comentário, ou no popular: quem sabe, sabe, mata a cobra e mostra o pau, nem precisa correr. Confira.

Sim. Ainda não é tudo.

A provocação maior de VCA está no próprio título da obra! E ele o faz ao seu modo, como Ralph Wald Emerson sentenciou: ”Somos todos gênios e só precisamos de coragem!” Então, para os que têm olhos e não veem, ouvidos e não ouvem, se arrastam e se debatem espíritos rasos e fúteis do ódio e do egoísmo na tagarelice da insipidez do proselitismo religioso, nas tolices de endeusamentos conservadores das superstições ou dos preconceitos das convicções e das disparatadas panaceias carregadas de recalques e com todo o tipo de restrição disso ou daquilo, enfim, para estes os seus versos soam como a frase de Gandhi: “O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não”. E como Shaw: “O ódio é a vingança do covarde”. E como Joseph Joubert: “O medo depende da imaginação; a covardia, do caráter”. E muito mais.

Com espírito aberto VCA segue o próprio caminho com a coragem de se rebelar feito o solilóquio desobediente de Thoureau e com a lição do Agostinho da Silva na cacunda: ortodoxo nunca, heterodoxo jamais: paradoxo somos na carne, ossos, vísceras e interstícios. E com uma última advertência a quem bebeu as águas nos infernos de Lete para olvidar do passado inglório da história, esta a pusilanimidade, pois precisa prestar bem atenção a um detalhe indispensável: por maior que seja a indiferença, as ninfas das nove noites amantes de Mnemósine estarão sempre em riste. Saiba e se sinta vivente, porque VCA fará com que você possa ter altas e muitas sinapses neuronais e isso não é nada mais que viver. Viva.

 

Murilo Gun

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