06
Seg, Abr

destaques
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

Aqui começa a mulher

aqui não tem fim

só mulher e começo

sem fim

porque mulher não tem fim

é mais que eterna

e infindável em si.

Aqui sua carne esboça o futuro

de porvir é o sangue fêmeo

de alfa seu espírito sem ômega.

 

O tempo em ti toma alento

quase se ajoelha, teme

que o detrates ou desprezes

pois és maior que ele.

 

Aqui começa a mulher sem fim

agora a costela é de luz e carne

oco ficou o peito infame do homem

e seu falo sem orgulho sob impulso

de míssil químico para levantar voo sem ventre.

 

Urze ardendo como um coração pequeno

vento nu lavando desejos

mulher de ventre escarlate pudendo-me

pudor abandonado todo

pão mordido pelos dedos (dos ratos e dos homens)

na avenida principal (main frame)

tetas comovidas com meus beijos úmidos

ruptura das algemas dos temores

amarras esquecidas nas estantes

inúteis dos livros (com pejo)

ágios íntimos, desprezada usura

do corpo sem sentido (ou serventia viva)

torso de música, escabelo partido

chama a desavivar temor dos outonos

à tona das águas brilho leitoso da lua

a lembrar leito frenético do corpo

incêndio das ervas despertas do sono

ventre do tempo, fibras do escuro

tudo a conspirar por nós.

(E o cio dormindo no gozo).

 

As vísceras do tempo expostas

o baralho de Cronos aberto em copas

na tábua das horas a paisagem crua

da passagem sem ventre ou finalidade

o naipe da duração em uso (suso ou suíno)

às manipulado, todo

o carteado do enigmático Deus

na mesa aberta dos homens

 

a carnalidade da hora (crucis et cetera)

nós, cromos, urnas, lenho e cerne do trânsito

trêmulo das coisas, a alma

numa cartada insolúvel

o trunfo, a fraude, o blefe de Deus

escancarados sob lâmpada extrema

 

cítaras esféricas, búzios cegos, salmos, migalhas

de Deus jogo da vida e da morte

não menos cifrado

os fatos da senha (a lauda, os selos)

e sigilosos intestinos do porvir abertos (sem capas)

em copas humanas

 

efêmeras rodadas de sempre

as cartas do destino esquecidas

na mesa fraudulenta dos homens.

 

O que se expanda do corpo do lírio

da face da dália, da haste do dolo

de uma flor de velório

 

o que se espera de uma rosa

e sua murcha sina e breve

 

o que se inocule de estrelas

num horizonte de eventos negros

 

(o que a este mar cego se alimente

eternamente)

 

os gestos do fogo (o berço das chamas

o maiêutico incêndio de Kavafis hebraico

o relâmpago do infinito Heráclito)

é de linho impuro e lento cânhamo sem afago.

 

é a verdadeira dádiva de Javé xerife do universo

bigbangueando pela eternidade infinita afora

 

toda a messe do silêncio

todo o mênstruo da aurora

os muros demorados da memória

(erguidos em torno de teu redor escuro)

a seda fecunda da lua sem fervor

os cílios solenes do sol

fagulhas do sal, pomares abruptos

sombras das vésperas, tudo

unta-me de ti, tudo

sobeja-me e completa

 

tudo é uno e nu em ti.

 

(Nada sobra de Deus

pois do nada Ele fez tudo

com o sopro do barro, a luz do verbo

a aljava de relâmpagos no ombro).

 

O poema anterior foi para

debulhar o brilho e dar viço

à esperança do aroma

(que inoculem de estrelas os filhos).

Murilo Gun

Inscreva-se através do nosso serviço de assinatura de e-mail gratuito para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.
Advertisement

REVISTAS E JORNAIS