06
Seg, Abr

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                                                                       Vital Corrêa de Araújo

      O poema – como o símbolo grego que servia para unir e reconhecer – ele se completa no leitor – não em qualquer leitor – naquele que espere completar-se intelectual e misticamente, não sentimentalmente.

Porque sentimento sentimentalóide é algo bem pequeno, irreconhecível, poeticamente desprezível, não servindo como complemento.

      Sentimentalmente somos ainda coração (bomba oca de sangue) e não intelecto (cérebro em expansão vital).

      É a conexão real poema/leitor que espero alcançar com minha poesia.

      Você – leitor qualquer – continuará a ser metade (platônica) enquanto não “me ler” ou acessar poema que o complete. E isso não é para qualquer leitor.

      Enquanto você não alcance (chegue a) sua parte perdida, será fragmento de ser (incompleto, mesmo incapaz, dividido na vida, parcial) ou symbolon, metade de algo em busca da outra.

      Essa outra metade de si, o symbolon, que busque acoplamento, complenitude, unidade plena não é algo dado, claro, meridiano. A outra metade de nós mesmos só a reconhecemos num poema não  lógico, aparente, mas obscuro apenas sugerido, de modo que da sugestão iremos à verdade, à conjugação das almas.

      Como tal se aplica ao poeta, reitero que a poesia não serve para sermos compreendidos mas para nos compreendermos.

      Simbolismo aqui não é algo órfico, proposta de um código para acesso ao oculto, caminho de símbolo em símbolo para chegar, acessar a mensagem escondida, no final feliz do poema.

      O significado do poema é sempre incompleto, capaz de novos ângulos hermenêuticos que o desvelem mais e mais, proporcionando-lhes novos saltos para inteira completude.

Sempre haverá (e deverá haver) ou restará uma aura de singularidades em torno do poema, no périplo de revelação de sua temporalidade absoluta.

Aqui entra como elemento o tempo (época) da recepção, condição que não é dada, mas aprendida.

      O poeta procura capturar o tempo, suspendê-lo ou adiantá-lo como que se o conúbio das partes, as bodas das metades, fossem mais perfeitas ou possíveis num futuro.

      Nos reunimos num livro de poesia não para sentir ou fingir emoções bonitas, superficiais, do âmbito da pele, mas para a congregação e pacificação da alma, salto dialético mental, imortal.

      Como a experiência da arte (poética) é a do significado (do amalgamar das metades perdidas do ser, cimento de si e do outro), então as hermenêuticas todas são essenciais partes desse casório poema/leitor, palavra/poema, poesia/vida.

      A palavra poética não é meio de informação ou fim de comunicação, não se esgota, desaparece por detrás do assunto que trata mas é o assunto em si.

      Sentimos de frente o impacto quando lidamos com a poesia. Quando a opaca rede-forma da linguagem poética assoma e interrompe ou caotiza o precioso (e dourado) fluxo lógico do entendimento, como estávamos habituados com a prosa nossa de cada dia. (Como eu disse: Só às paredes confesso é megapoema para os não habituados).

O fácil entendimento, o recado direto (como um uper de cima para baixo) e a lição (de moral ou não) tão querida é posta em xeque (morta). Os (incertos) poetas complicam a poesia, exigem do leitor (mais do que eles podem dar, gás de que não dispõem) a compulsão do dicionário. Vêm com palavras novas e inusuais para confundir.

      Num poema, uso colóquio como verbo (eu colóquio, tu colquias) e o leitor detesta (não entende e, se não entender, não vale: é a regra famigerada vigente).

 

    

 

Murilo Gun

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