Vital Corrêa de Araújo
A prosa e a poesia diferem quanto ao uso da linguagem.
A prosa utiliza a linguagem falada na escrita ou quase. A linguagem ordinária, diária, comum, cotidiana, de comunicação dia a dia, tal como ordinariamente se usa, é do domínio da prosa, reflete-a, constitui-a. A linguagem poética não serve, nem pode servir aos propósitos da prosa. Prosa poética e poema em prosa também diferem da prosa pura, crua, comum, ordinária.
Na poética, a linguagem comum é separada de seus padrões diários, o que a impulsiona à busca de novas e outras formas de expressão, que não sejam os prosaicos, comuns ou não, ordinários ou mesmo artísticos. Tendemos (ou queremos) a fazer poema tal como se fala, o que, à exceção da poesia popular clássica (cordel, etc.) é inócuo e danoso ao fim poético. Ideologicamente, a poesia tem como finalidade a si mesma. E não outra coisa como a prosa.
Valéry, o gênio, antecipou Jakobson e muitos. Distinguiu cartesianamente a palavra poética do uso comum, normal da linguagem diária (falada e escrita).
A linguagem diária é como, numa analogia monetária, a moeda circulante, trocados, que assim como nosso dinheiro (papel moeda, não página poética) não possuem como o metal, o valor nela estipulado (ou estampado na “coroa”).
“A linguagem da poesia não é um mero indicador que se refere a algo mais, mas, assim como as moedas de ouro, são aquilo que representam”, conforme Gadamer ensina. O lastro é nela e nela se realiza.
O estalão da linguagem poética é sua própria natureza.
A linguagem comum (não poética) se assemelha a uma moeda que passamos de mão em mão, de forçado curso diário utilizando-a, entre nós, no lugar de alguma outra coisa. Ou seja, linguagem como meio de troca, verbo por informação, vocábulo por recado, lição.
“A linguagem diária aponta para alguma coisa mais além de si mesma... e desaparece por trás dela” (Gadamer)... quando comunica, dá o recado, firma a lição, informa, realiza-se e some, esgota-se. Se transforma nela.
A linguagem poética o é em si não para outro. “É como o ouro em si” (Gadamer).
Trocamos a prosa pelo seu objeto, ao comunicá-lo. Obtemos algo em troca, como afirma Gadamer: “uma moeda que passamos entre nós no lugar de uma coisa, de alguma outra coisa”.
A linguagem comum é o que quer dizer, a poética é o que é. Ou como o seja.
A informação, o recado, a lição é o objeto da troca pela moeda ordinária (de curso legítimo) da prosa (normal, científica, jornalística, etc).






