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Sex, Jul

Há 130 anos atrás, Nietzsche decretou sem pena (com seu cálamo em riste) a morte de Deus, fato que desencadeou o medo (de morrer também) e a necessidade (urgente) de substituí-lo logo (e Logos) antes que as coisas se complicassem por demais... e esse vácuo primo ( o locus vazio) fosse ocupado (porque o vácuo não dura) por velhos e obstinados demos. E também porque: Deus morto, tudo seria (ou nada seria) permitido. A velha questão, antes meramente jogo abstrato, agora se afiguraria prática... após....

 

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Desde o Monitor anterior, foi criada a coluna polêmica, cujo primeira matemática foi a crônica O que é poesia?

O objetivo é publicações tais que serem polêmicas situações de debate, questionamentos meio radicais porém instalados em temas eminentes como poesia moderna, crepúsculo (normal, temporal, histórica) do soneto, autossuficiência e oportunidade do versalibrismo (que cem anos após sua instalação ainda assusta e estremece ou confunde o leitor). Enfim, uma das funções (pedagógicas elevadas) da coluna polêmica é contribuir para a recepção da poesia moderna entre nós.

A coluna está aberta a réplicas. Enviadas por e-mail (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.) ou (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.), serão apreciadas e selecionadas pelo editor. E encaminhadas à publicação, se for o caso.

Vital Corrêa de Araújo

Deus deve estar triste. Com o mundo dos homens. Sua principal criação. Com certas criaturas, que se revelam novos e atilados átilas e se deliciam com jogos de guerra, invasão real de países, esmagamento literal de nações, à força de bombas e fuzis automáticos, granadas, reides aéreos, razias bombardeiras. Após o fim da guerra fria, com a rendição de um dos oponentes, o que sobrevieu reinventou a guerra quente preventiva, sem declaração, para tumultuar, fabricar armas, renovar o parque e o estabelecimento industrial-militar, rendoso e sanguinário, em que petrodólar e usura dão-se as mãos.

A tristeza de Deus se estende a muitas regiões. Aqui, no Brasil, vivemos dias tumultuosos, sacudidos por violência desmedida, apavorante, rendidos ou sitiados por bandidos, presa da mais infame situação de instabilidade psicológica e insegurança física, como em meio a uma guerra não declarada, mas muito mais perversa do que qualquer outra.

Batem em nossas almas, espremem nosso espírito. A carne, não se fala, rasgam.

Ante tanta ferocidade, tanto desencanto, não se pode ficar alheio, como se estivéssemos no melhor dos mundos panglossianos. A postura passiva e alienada nos será cobrada pelo futuro. A impassibilidade tornar-se-á irresponsabilidade.

E foi com essa visão e esse sentimento que o escritor Alexandre Santos- atual presidente do Clube de Engenharia de Pernambuco, da Academia de Letras e Artes do Nordeste e Diretor Geral da UBE – reagiu, coerente com sua trajetória de vida que mostra seu constante humanismo solidário e essencial. Autor de obra extensa, cerca de 30 livros publicados, entre estudos técnicos, crônicas e dois romances – um, o Moinho, traduzido em espanhol, Alexandre Santos lançará, no próximo dia 8 de junho, às 19 h, na Academia Pernambucana de Letras, o G____________, poema polifônico, livro total-objeto que privilegia o moderno em lugar de temas eternos. O modo de civilização em cheque e choque, a modernidade jogada aos cães, a desumanidade vigente, a desumanização do homem são os assuntos do poema, simbolizados na trágica situação do Iraque.

G___________ é um livro com iluminuras a cargo do imenso artista plástico – Wilton de Souza – que ilustra magistralmente cada poema. O professor universitário de pós-graduação, Bezerra de Lemos, analisa, desnuda cada poema e oferece ao leitor um quadro crítico da obra.

A plasticização artística, a iluminura literária enriquecem o significado, são significantes como os versos. G__________ é um livro total e humano, um livro dentro de outro, pois traz um CD em cada exemplar. Como obra gráfica é ímpar e traz a marca de grife CEPE.

Em suma, é um livro oportuno e desejado. Não se justifica o silêncio literário, a tirada do corpo, o dar de ombros ante uma realidade tão forte que nos devora: as guerras de hoje, em ato ou em potência, e batalhas, como a de São Paulo, bem como outras guerras civis ocultas ou declaradas que se desenrolam ante nossos olhos arregalados e estupefatos, sem que ao menos surgissem poema para marcar nosso tempo e nossa alma.

Montado em quatro partes, com cenas que representam desde uma situação de paz até a invasão demoníaca, a reação, a resistência, a derrota do demônio até a glória da nova paz.

G__________ também é peça teatral, a ser encenada no lançamento do livro. Também há versão em DVD e uma belíssima música de fundo, criada para a teatralização, composição do próprio poeta.

G___________ é, portanto, um poema marcado por profundo humanismo, fruto da inquietação e mesmo da insatisfação mais profunda ainda de um poeta com a situação humana do mundo, que assim coloca sua palavra e a arte, teatro, crítica literária, música, canto, artes plásticas, a serviço da esperança, contra o desespero. Ferido pela ferocidade do mundo, Alexandre Santos reage – em nome de todos os escritores e artistas - artisticamente. Seu símbolo é o drama diário vivido há três anos pelos iraquianos, uma situação que apontava mil caminhos de solução prática, mas um governante que se considera dono do mundo escolhe a via bélica, a agressão, a invasão, a força, como se um povo fosse um objeto do qual se apropria qualquer um, gado em porteira trancada, trapo que se incendeia, bonecas de carne para o pasto das bombas.

O 11 de setembro foi muito trágico, mais não representou uma declaração de guerra ao mundo. Foi fruto de uma política desajustada e injusta dos USA em relação ao Oriente Médio, em clara oposição à de Clinton. Cabia à ONU liderar a reação e nunca um país-membro tomar as decisões pelo resto do mundo e criar guerras, onde civis são vítimas inocentes. É imperialismo fanático, redivivo, tipo Stalin.

Alexandre Santos mostrou que isso é uma anomalia e que há sintonia entre a literatura e a realidade.

O ofício do poeta é o que de mais sagrado restou ao homem. Ele move a hóstia da palavra até que a saliva do verbo a envolva. E a traga a boca do mundo. O ato do poeta reflete-se a cada hora no corpo de sua alma. Ou no espelho indizível da palavra.

O ânimo poético é transformador. Aquém dele tudo torna-se prosaico, mera ou demasiadamente prosaico.

A palavra desafia o tempo rude que nos ronda. Ela já foi de barro em forma de lajota seca ao sol, o forno primitivo. Já foi talhada no papiro, árvore do Nilo. Já foi pergaminho e couro. Já foi velino, quase seda, quase etérea. Pele de feto de carneiro. Hoje é digital. Amanhã, prensas metafísicas a imprimirão no papel do espírito.

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Murilo Gun

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